sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Ofélia- Hamlet






Ofélia uma das grandes personagens de Shakespeare, inspirou maravilhosas obras de arte e discussões sobre o feminino e a questão patriarcal.

Para exemplificar, a força de Ofélia na história, escolhemos um trecho do enredo, no qual a Rainha Gertrudes informa a Laertes, irmão de Ofélia, que esta se afogou. 

Laertes pergunta: "Afogada! Oh, onde?

Rainha:

Há um salgueiro que cresce inclinado no riacho
Refletindo suas folhas de prata no espelho das águas;
Ela foi até lá com estranhas grinaldas
De botões-de-ouro, urtigas, margaridas,
E compridas orquídeas encarnadas,
Que nossas castas donzelas chamam dedos de defuntos,
Quando ela tentava subir nos galhos inclinados,
Para aí pendurar as coroas de flores,
Um ramo invejoso se quebrou;
Ela e seus troféus floridos, ambos,
Despencaram juntos no arroio soluçante.
Suas roupas inflaram e, como sereia,
A mantiveram boiando um certo tempo;
Enquanto isso ela cantava fragmentos de velhas canções,
Inconsciente da própria desgraça
Como criatura nativa desse meio,
Criada pra viver nesse elemento.
Mas não demoraria pra que suas roupas,
Pesadas pela água que a encharcava,
Arrastassem a infortunada do seu canto suave
À morte lamacenta."

Trecho da obra de William Shakespeare "Hamlet" 
tradução de Millôr Fernandes.



Ofélia - Paul Steck





Ofelia, com Koi por Lantomo





Ofelia, Vogue December 2011



Anna Karoleva - Ofélia







Robert Walquer, Ophelia


Ofélia, John Everett Millais









Prova Ophelia III by Marga López




quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Contos de animais - Magia na floresta amazônica



Uma das histórias que gosto muito de contar e os alunos de ouvir.



Retirada do livro "Contos de animais- do mundo todo", Recontados por Naomi Adler e ilustrações de  Amanda Hall.




Magia na Floresta Amazônica
Brasil

Houve um tempo em que não havia escuridão, nem noite, nem sono.
Só havia luz, dia e despertar. Mas as velhas árvores que viviam na Floresta Amazônica sabiam muita coisa. Foi sua sabedoria que tirou a noite do rio e a trouxe para o mundo.
As velhas árvores lançaram sua magia  por toda a extensão da floresta, e assim nasceram todos os seres animados.  Os gravetos e as raízes se transformaram em mamíferos. As folhas das árvores se transformam em pássaros. 
As pedras e seixos dos rios transformaram-se em peixes e caracóis. Foram criados o tucano, o beija-flor e o papagaio. Foram criados o tatu, o tamanduá, a anta e a onça. Foram criadas a serpente,  a piranha e a tartaruga. 
Tudo isso aconteceu exatamente no momento em que as velhas árvores trouxeram a noite para a terra.
No meio da escuridão, a Serpente vinha rastejando pela margem do rio, contemplando seus olhos bonitos refletidos na água. 
E ela cantava:

Brilho do meu olhar,
Na magia da noite
Quero ver você dançar.

E seus olhos pularam fora de sua cabeça e foram dançar na superfície da água.
Naquele momento, a Onça estava andando pela margem do rio, contemplando seu corpo bonito refletido na água. De repente ela viu os olhos da Serpente dançando na superfície da água.
Ela se abaixou no meio do mato, em silêncio, muito quieta, e ficou observando. Dali a pouco, a Serpente cantou:

Brilho do meu olhar,
Na magia da noite
Quero ver você voltar.

E seus olhos, sempre dançando, voltaram à cabeça dela.
A Onça ficou impressionada com o que acabava de ver. Foi até Serpente e perguntou:
- Como é que você consegue fazer uma coisa tão maravilhosa?
A Serpente, feliz por ter a oportunidade de se exibir, repetiu sua canção. Novamente seus olhos pularam fora de sua cabeça e, como vaga-lumes, dançaram pelo rio sob o luar. Dali a pouco, a Serpente cantou de novo e seus olhos voltaram dançando.
A onça ficou mais impressionada ainda.
- Eu queria que meus olhos também dançassem – ela disse,- Por favor, me ensine esse truque.
A Serpente concordou, mas advertiu:
- Isso não é truque, é magia. E toda magia pode ser perigosa!
Mas a Onça não se importou, ela queria que seus olhos dançassem na água. Então a Serpente começou a cantar:
Brilho do seu olhar,
Na magia da noite
A onça quer ver você dançar.
Na mesma hora, os olhos da Onça pularam fora e foram dançar no meio do rio. Depois de um tempo, a Serpente cantou:

Brilho do seu olhar;
Na magia da noite
A onça quer ver você voltar.

A Onça estava tão intrigada, que ela quis ver aquilo de novo.
- Maravilhoso! Faça outra vez.
- Não, é perigoso- replicou a Serpente.
- Por favor, por favor, só mais uma vez – suplicou a Onças.
A Serpente cedeu. Mas, dessa vez, quando os olhos da Onça estavam dançando na água, ela cantou:

Brilho do seu olhar,
Na magia da noite
EU  quero ver você voltar.

E os olhos da Onça foram dançando até a Serpente, que pos a língua para fora e os engoliu. Então ela virou as costas e entrou na escuridão da floresta. A pobre Onça não enxergava nada. 

Amedrontada e sozinha, ela saiu perambulando pela floresta, sem saber para onde ia, sem saber o que fazer. Sem olhos, ela não podia caçar e estava condenada a morrer de fome. 

Desesperada, deitou debaixo de uma velha árvore. Pôs as patas sobre as órbitas vazias de seus olhos e começou a chorar baixinho.

A árvore ficou com muita pena da Onça e resolveu ajuda-lá. Usando seus poderes mágicos, chamou seu amigo, o Gavião-de-penacho. O Gavião-de-penacho chegou e ficou sobrevoando a Onça.
- Por que está tão triste? – ele perguntou.
A Onça contou a estranha história. O pássaro disse:
- É, estamos mesmo numa época muito estranha. Na escuridão da noite, muitas coisas misteriosas podem acontecer. Espere aqui, vou ver o que posso fazer para ajudá-la.





Com essas palavras, o Gavião-de-penacho levantou voo e foi olhando, ouvindo, até que seus olhos argutos viram a Serpente rastejando para um lago. Voou até ela e disse:
- Ouvi dizer que você é capaz de fazer seus olhos dançarem na superfície da água.
- É verdade – respondeu a Serpente.
O Gavião-de-penacho disse:
- Pois eu não acredito. Isso é impossível.
- Com magia, tudo é possível – replicou a Serpente.
- Não acredito em magia. Se é verdade, por que não me mostra seus olhos dançando sobre a água? – perguntou o Gavião-de- penacho.


A serpente, feliz por ter a oportunidade de se exibir, cantou:

Brilho do meu olhar,
Na magia da noite
Quero ver você dançar.

Seus olhos pularam fora e começaram a dançar no  lago. O Gavião-de-penacho sobrevoou a água, de repente, fez um voo rasante e pegou os dois olhos com o bico. Depois voltou para a escuridão da floresta e voou até a velha árvore, onde a Onça continuava esperando.

Pairando sobre a Onça, o Gavião- de- penacho deixou os dois olhos caírem bem dentro das órbitas dela.
A Onça voltou a enxergar, e muito melhor do que antes. Ela olhou seu reflexo na água e ficou admirada com a beleza e o brilho de seus novos olhos.
- Obrigada, amigo. Como posso recompensá-lo? – ela disse.
- Estou com muita fome. Por que não caça uma anta e traz para mim? É minha carne favorita – replicou o Gavião-de-penacho.
A Onça caçou uma anta e os dois novos amigos comeram juntos um jantar maravilhoso.

A partir daquela noite, a Onça sempre deixa uma parte de sua presa para o Gavião-de-penacho, em agradecimento por seus novos olhos cintilantes. Quanto aos olhos da Serpente eles voltaram a crescer, fixos, brilhantes, resplandecentes, mas nunca mais dançaram na noite mágica.




A escritora conta-nos que descobriu esta história em 1986, em Londres, com uma índia brasileira chamada Inti Ramos.

sábado, 10 de agosto de 2013

Entender?





Entender é sempre limitado




Clarice Lispector




"Eu não entendo, eu não entendo. 

Isso é tão vasto, que ultrapassa qualquer entender.

Entender é sempre limitado.

Mas não entender pode não ter fronteiras.

Eu sinto que sou muito mais completa quando não entendo.

Não entender, do modo como falo, é um dom. 

Não entender. Mas não como um simples estado de espírito.

Bom é ser inteligente e não entender.

É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida.

É um desinteresse manso, uma doçura de burrice.

Só que de vez em quando vem a inquietação: eu quero entender um pouco.

Não demais: mas pelo menos entender que eu não entendo"




sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Livro: ZOOM


“Zoom” de Istvan Banyai, é um livro de imagens surpreendentes. 

Apresentei este livro para as turmas de I e II ciclo, mas podemos trabalhá-lo com qualquer faixa etária.


Nas turmas que já trabalhei com este livro, os alunos sempre param para ver as imagens atentamente, buscam compreender o significado de cada ilustração e tentam adivinhar a seqüência da  história.

É uma aventura que deve ser lida diversas vezes e usando diferentes abordagens com os alunos. 
Do micro para o macro ou do macro para o micro, do imaginário para o real, a imagem dentro da imagem, inúmeras são as possibilidades de leitura.

O livro ainda possibilita a reflexão do nosso olhar e da nossa perspectiva, onde qualquer coisa no mundo pode ser substancialmente modificada, dependendo: das informações que dispomos, do contextos social e cultural que vivemos, do ponto de onde olhamos, etc..

"Nós realmente enxergamos a realidade e a totalidade dos fatos, dos fenômenos ou dos objetos?"

O bom do livro é que o aluno pode enxergar que tudo pode ser diferente dependendo do ponto de vista. E também leva-o a  perceber que na maioria das vezes apenas vislumbramos uma pequena parte do todo.